O que existe de similar entre Getúlio e Lula é o ódio das elites contra ambos/ Sérgio Jones*

19 de abril de 1882 – Nasce Getúlio Vargas, uma das mais populares lideranças da história do País

Todos nós estamos exaustos de saber que, ao longo da história da humanidade, não existem nem são estas formatadas por coincidências e acasos, mas por fatos que lhes são inerentes. Registrando e retratando o seu tempo e as suas contradições intrínsecas que acabam se tornando tão peculiar a todos. E isso pude constatar ao deparar-me diante de um artigo escrito pelo jornalista paulista Mário Lopes. No qual ele busca traçar, com êxito, a aproximação da trajetória política de Lula com o velho caudilho Getúlio Vargas, embora reconheça a existência de inúmeros aspectos que os colocam em posições distintas, a começar pelo tempo e conjunção histórica de época. Mais um fato os aproxima bastante, o ódio das elites a Lula é o mesmo que foi dedicado a Getúlio.

Embora reconheça o autor que o Lula teve até agora muito menos tempo que Getúlio, considera ser um equívoco dizer que sua gestão teve menor impacto sobre a infraestrutura do país. E ressalva, se Getúlio fundou a Petrobras, Lula refundou-a com o pré-sal – com a oposição das elites nacionais. Se Getúlio lançou as bases da indústria brasileira, Lula deu a ela uma dimensão sem precedentes ao tornar o Brasil uma potência exportadora global.

É de conhecimento geral de que Getúlio deixou sua marca na superestrutura nacional, ao criar o Ministério da Educação, Lula promoveu uma revolução no ensino superior, abrindo o as portas da Universidade aos filhos dos pobres, depois de décadas de veto. Se Getúlio mudou as relações no país e a cultura nacional ao instituir os sindicatos, voto secreto, o ensino primário obrigatório, o voto feminino, Lula inseriu os pretos e os pobres com as políticas de cotas, mudou a relação das pessoas LGTBs com o Estado e, ao contrário do que se disseminou, em seu governo (e no de Dilma), em vez de acomodação, o movimento sindical brasileiro teve um dos períodos mais vigorosos de mobilização da história – a partir de 2004 o número de greves no país começou a crescer “até atingir a quantidade impressionante – para o Brasil – de 2050 greves em 2013”.

Diante de toda essa similitude, houve algo que Getúlio jamais sonhou em fazer – nem havia condições concretas para tanto. Lula retirou o Brasil da condição de país subalterno e desimportante na geopolítica e transformou-o num protagonista influente e admirado. A partir do boom das commodities e das exportações, Lula tornou o Brasil de um país irrelevante no contexto das relações comerciais da China no 9º maior parceiro comercial do país que desponta para assumir a liderança do planeta. Mais que isso: sob sua liderança, o Brasil deixou a sombra dos EUA – o que fica evidenciado pelo trecho antológico e exemplar do discurso de Lula na 4ª Cúpula das Américas em 2005.
Aprofundando mais sob a atuação de Lula, Lopes destaca e chama a atenção para o fato de que o Brasil foi um dos vetores da formação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o bloco que tem alterado o estatuto das relações geopolíticas globais -sem qualquer protagonismo brasileiro desde o golpe de 2016.

Fazendo uma breve e necessárias retrospectiva ficou evidente a profunda e precisa observação histórica ao citar que em 1945, a elite brasileira decretou o fim do getulismo. Poucos meses depois, o apoio de Getúlio garantiu a vitória de Dutra na eleição presidencial contra o candidato da direita, Eduardo Gomes. Mais ainda: em 3 de outubro de 1950, o próprio Getúlio derrotou diretamente o candidato da UDN, o mesmo Eduardo Gomes, retornando à Presidência -com 49% dos votos.

Sobre Getúlio e sua volta à Presidência, um dos principais porta-vozes da direita à época, Carlos Lacerda, escreveu em uma manchete do jornal Tribuna da Imprensa, em 1 de junho de 1950, um pequeno conjunto de frases que passou à história e cabe como uma luva à situação atual, em relação a Lula. Escreveu Lacerda: “O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Trocando em miúdos podemos sentenciar que o ódio das elites a Lula é o ódio a Getúlio.

O que fica evidenciado diante desta rápida pincelada, pela tela de nossa curta existência enquanto nação, é que os inimigos e até aliados de Getúlio cansaram de decretar o fim do getulismo nos anos 1940-50. Os inimigos e até aliados de Lula têm decretado nos últimos três anos o fim do lulismo. Como aconteceu no passado, aqueles foram derrotados e esses estão sendo.

O articulista ao fazer todas essas ponderações observa, com muita maestria, que Lula é tão grande quanto Getúlio – talvez maior- e o lulismo é o sucessor direto do getulismo – como, aliás, acabou por reconhecer outro gigante, Leonel Brizola, nos últimos anos de vida.

Sérgio Jones, jornalista (sergiojones@live.com)

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