Tem dias…

Como diz a sábia professora Andréia Reis, existem anjos que sempre estão nos dizendo algo. Hoje pela manhã, tive a felicidade de ler uma mensagem de um deles, um bem conhecido meu e que me deixou bastante feliz. Como eu acho que coisas boas devem que ser divulgada, resolvi dividir este prazer com todos. Leiam a mensagem na integra.

“Colegas,

Hoje fiquei como canta Chico Buarque, na música Roda viva, com sentimento de morte. Hoje me sinto como quem partiu ou morreu, como quem estancou de repente, ou que percebeu que foi o mundo então que cresceu. Acho que é porque eu quis ter voz ativa e no meu destino mandar. Acho que fui contra a corrente até não poder resistir, mas na volta do barco foi que eu senti o quanto deixei de cumprir. Faz tempo que eu cultivei a mais linda roseira que há, o sonho. Mas numa bela hora chega a roda viva e carrega o sonho.

Acho que tudo porque não ouvi o anjo. Eu sei que não sou Drummond, mas quando eu nasci, também um anjo me disse algo, não me disse para ser gauche, mas para ser professora na vida. Fiquei pensando o que é ser professora na vida.
Há quem pense que estar em sala é ruim, perigoso. Mas todo lugar é perigoso, tudo é perigoso. Albert Einstein afirma que o mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer. E não foi só ele, Martin Luter King expressa que o preocupa não o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. Em sala podemos dar a régua e o compasso para que os bons não se calem, não se omitam.

Marx, em o Manifesto comunista, diz que tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social. Não há muitos sonhos, as relações de poder existem. É o branco massacrando o negro, é o rico explorando o miserável, é o homem maltratando a mulher, é o hetero discriminando o homo. È a posição social que determina tudo.

O anjo estava certo, tenho que ser professora. Para dar voz a quem não tem. Gandhi afirma que a força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável. E eu tenho uma vontade indomável por justiça, por igualdade, por garantia de direitos. Como tenho uma vontade indomável que em meu país as pessoas sejam avaliadas pelo o que são e não pelo que tem a oferecer, econômica ou politicamente. Como a minha vontade é indomável para que todos de fato sejam iguais perante a lei. Como a minha vontade é indomável, quando vejo que pobres, negros, mulheres e crianças são oprimidos. Meu Deus, como a minha vontade é indomável, quando vejo pessoas economicamente desfavorecidas morrendo nas filas sem direito a tratamento médico digno.

No entanto, a minha vontade é muito mais indomável quando sei que só a educação pode mudar o Brasil, Tenho então um desejo enorme de ensinar, se possível de plantar saber em cada cérebro.

Quero ensinar, ter a liberdade de falar, não com discursos tendenciosos, mas de garantias. Não com discursos repletos de palavras e vazio de dignidade. Quero falar do TI-JO-LO de Paulo Freire, quero alfabetizar, não para se saber a A VACA VIU A UVA e A EVA VIU A VELA. Quero ensinar para que o aluno saiba que tijolo é o que constitui a sua casa e que uma casa digna é direito de todos, assim como alimentação e o direito de se expressar. Como Paulo Freire ensina os homens se educam. Nossa, como eu também quero aprender e ensinar que respeito à dignidade humana deve-se ter em todo lugar.

Ah!!! Anjo, sabido! Eu tenho que ser professora na vida. Tenho que ensinar o beabá, para que todos possam entender que a morte chega mais rápido quando nos calamos para as injustiças. Luter King afirma que nossas vidas começam a morrer no dia em que calamos coisas que são verdadeiramente importantes. Como eu preciso ensinar, para só calar o que é sujo, desonesto, discriminatório, faccioso.

Ah, Anjo!!! Então me auxilia, já que é minha a missão de ensinar. Mas tenho uma baita vontade de odiar. É!!! É, odiar!!! Odiar a corrupção, a política do bom ladrão, a ganância do traficante, a estupidez dos omissos, o silêncio dos sábios.

Mas odeio a minha condição: professora negligente. Professora que se cala, professora que sai da sala. Professora fraca, que lê e não aprende. Verdade, não aprende que gente é sempre gente onde quer que seja o lugar. Assim o melhor lugar é no chão da escola.

Luter King diz que não se deve permitir que homem algum nos rebaixe o suficiente a ponto de odiá-lo. Puxa!! è só lá , lá na escola que não me sinto rebaixada, porque estou com meus pares: os diminuídos, os excluídos. É lá na escola que sigo o conselho de Santo Agostinho: “Quando não se pode fazer tudo o que se deve, deve-se fazer tudo o que se pode”. Porque em outro lugar eu ao ver o errado, torno-me mais errada se eu falar.

Afinal, na escola há diálogo. Pois como afirma Moacir Gadotti, o diálogo sempre pode acontecer entre os iguais, ou desiguais, mas nunca entre antagônicos. Na escola eu tenho iguais.”

Andréia do Vale Reis
Educadora por essência

Leave a Comment

Filed under Textos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.